Anitta é coroada por Eloína, pioneira travesti que fez história no Carnaval

Meio século depois de romper barreiras na avenida, Eloína dos Leopardos voltou ao centro da festa para entregar a coroa de rainha da Grande Rio a Anitta.
Uma coroação cercada de emoção, música e representatividade marcou a noite deste domingo, 20 de setembro, na quadra da Acadêmicos do Grande Rio, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.
Anitta foi oficialmente coroada rainha de bateria da escola para o Carnaval de 2027. Mas quem colocou a coroa na cabeça da cantora tornou o momento ainda mais histórico: Eloína dos Leopardos, travesti reconhecida como a primeira rainha de bateria do Carnaval carioca.
A cerimônia reuniu duas gerações separadas por exatamente 50 anos. De um lado, uma das maiores artistas brasileiras da atualidade. Do outro, uma mulher que desafiou o preconceito e inaugurou, em 1976, um dos postos mais cobiçados do Carnaval.
Anitta realiza um sonho de infância
Aos 33 anos, Anitta chegou à quadra usando um vestido vermelho justo, recortado e coberto de pedras. Diante da comunidade, a cantora chorou, sambou e agradeceu a oportunidade.
A artista contou que ocupar aquele espaço era um sonho desde a infância, mas ressaltou que só permanecerá no cargo enquanto contar com o apoio da comunidade e dos integrantes da bateria.
A noite também contou com uma apresentação inspirada na turnê EQUILIBRIVM, troca de figurinos, bailarinos e participações de famosos. UOL, gshow.
Uma coroação carregada de simbolismo
Em vez de receber a coroa de Virginia Fonseca, que ocupou o posto no Carnaval de 2026, Anitta convidou Eloína para participar do ritual.
A presença da pioneira foi uma escolha simbólica. Anitta destacou que Eloína abriu portas não apenas para outras travestis, mas também para a visibilidade artística de pessoas que, durante décadas, foram afastadas dos lugares de maior destaque.
A assessoria de Virginia declarou que a influenciadora estava disponível para realizar a passagem tradicional, mas que a nova rainha teria solicitado outro formato. A Grande Rio não comentou essa alegação. Band.
Quem é Eloína dos Leopardos?
Hoje com 80 anos, Eloína construiu uma trajetória marcada pela arte, pela coragem e pela resistência.
Antes de chegar ao Carnaval, trabalhou nos bastidores do teatro como camareira de grandes vedetes e depois passou a se apresentar como dançarina em casas noturnas. Durante a ditadura militar, deixou o Brasil e viveu em Paris, onde trabalhou como artista transformista.
Ao retornar ao Rio, participou de um concurso de Carnaval usando um biquíni branco e penas de faisão. Sua apresentação chamou a atenção do figurinista Viriato Ferreira, que falou sobre ela com o lendário carnavalesco Joãosinho Trinta.
A noite em que o Carnaval mudou
Em 1976, Joãosinho Trinta colocou Eloína à frente dos ritmistas da Beija-Flor de Nilópolis no desfile “Sonhar com Rei Dá Leão”.
O posto de rainha de bateria ainda não existia como conhecemos atualmente. Eloína foi posicionada sozinha diante da bateria e transformou aquele lugar em um símbolo de beleza, dança e poder feminino.
A Beija-Flor conquistou o campeonato naquele ano, mas a identidade de Eloína causou enorme repercussão. Segundo ela, boa parte do público não sabia que a exuberante mulher que havia encantado a avenida era uma travesti.
A revelação aconteceu no dia seguinte ao desfile e, nas palavras da própria artista, “foi um escândalo”. Em uma época de forte repressão policial e preconceito contra pessoas LGBTQIA+, sua presença naquele espaço representou um ato de coragem.
Eloína permaneceu ligada à Beija-Flor entre 1976 e 1978, participando do primeiro tricampeonato da história da escola. gshow, Metrópoles.
O nascimento de Eloína “dos Leopardos”
Na década de 1980, Eloína criou o espetáculo Noite dos Leopardos, produção marcada pela sensualidade e por apresentações de homens nus.
O show tornou-se um fenômeno da noite carioca, permaneceu em cartaz por aproximadamente uma década e ajudou a apresentar Eloína a uma nova geração. Foi a partir desse sucesso que o nome artístico Eloína dos Leopardos se consolidou.
Ela também participou de produções como Divinas Divas, espetáculo que reuniu artistas travestis pioneiras dos palcos brasileiros.
O retorno triunfal ao Carnaval
Décadas depois de sua estreia histórica, Eloína voltou à avenida. Em 2025, desfilou como destaque da Paraíso do Tuiuti no enredo dedicado a Xica Manicongo, considerada a primeira travesti não indígena documentada no Brasil.
Agora, em 2026, Eloína voltou a ocupar um lugar de protagonismo ao coroar Anitta. A cena não representou apenas a chegada de uma nova rainha à Grande Rio: representou o reconhecimento de uma mulher que abriu portas quando quase todas elas estavam fechadas para pessoas como ela.
Comadres e compadres, o que em 1976 foi tratado como “escândalo” hoje é reconhecido como história. E essa história tem nome: Eloína dos Leopardos.