Morre Gracindo Júnior, pioneiro que estava na Globo desde sua inauguração

Gracindo Júnior morreu em casa, no Rio de Janeiro, cercado pela família. Filho de Paulo Gracindo, ele construiu uma trajetória própria no rádio, no teatro, no cinema e na televisão.
O Brasil se despede de um daqueles artistas que não apenas apareceram na televisão, mas ajudaram a escrever a história dela. O ator e diretor Gracindo Júnior morreu na noite de terça-feira, 1º de setembro de 2026, aos 83 anos, em sua casa, no Rio de Janeiro.
A notícia foi confirmada por seu filho, Pedro Gracindo. Até a publicação desta reportagem, a família não havia divulgado oficialmente a causa da morte. O corpo do artista será cremado nesta quinta-feira, dia 3, no Rio de Janeiro. A cerimônia está prevista para acontecer no Crematório e Cemitério da Penitência.
Comadre, é importante fazer uma pequena correção histórica: Gracindo Júnior não foi propriamente um dos fundadores administrativos da TV Globo, mas participou da inauguração da emissora, em 1965, e integrou seu primeiro elenco de atores. Ele já estava contratado desde dezembro de 1964, meses antes de o canal entrar no ar.
Uma vida que começou no rádio
Nascido Epaminondas Xavier Gracindo, no Rio de Janeiro, em 21 de maio de 1943, ele era filho do inesquecível ator Paulo Gracindo, um dos nomes mais importantes da dramaturgia brasileira.
Apesar do peso de carregar um sobrenome tão conhecido, Gracindo Júnior construiu sua própria história. Começou a trabalhar ainda adolescente: aos 15 anos, fez um teste para a Rádio Nacional e passou a atuar como ator, redator e disc-jóquei.
Ele chegou a cursar Psicologia, mas não exerceu a profissão. O chamado da arte falou mais alto e conduziu sua vida por diferentes caminhos: rádio, teatro, televisão, cinema, direção e produção.
Sua estreia nos palcos aconteceu em 1961, na peça A Escada, de Oswald de Andrade. Poucos anos depois, durante a ditadura militar, foi cassado por sua militância política e ficou impedido de trabalhar na Rádio Nacional. Naquele momento, já havia passado pelas TVs Rio, Excelsior e Tupi.
Presente no nascimento da TV Globo
Quando a TV Globo foi inaugurada, em abril de 1965, Gracindo Júnior estava entre os primeiros atores contratados. Participou de Rosinha do Sobrado, considerada a segunda novela exibida pela emissora, e de outras produções daquela fase inicial, como Padre Tião, A Rainha Louca e A Próxima Atração.
Em diferentes momentos da carreira, dividiu a cena com o pai. Os dois estiveram em produções como Os Ossos do Barão e O Bem-Amado, novela na qual Paulo Gracindo eternizou o prefeito Odorico Paraguaçu.
Mas foi em O Casarão, de 1976, que pai e filho protagonizaram um encontro especialmente marcante. Gracindo Júnior interpretou a versão jovem do pintor João Maciel, enquanto Paulo Gracindo viveu o mesmo personagem na fase mais velha.
É uma daquelas imagens que permanecem na memória da televisão: duas gerações da mesma família unidas pela arte e dando vida ao mesmo homem em épocas diferentes.
Galã de Dona Beija
Na década de 1980, Gracindo Júnior também brilhou na extinta TV Manchete. Interpretou Dom Pedro I em A Marquesa de Santos e viveu Antônio Sampaio em Dona Beija, formando par romântico com Maitê Proença.
O sucesso de Dona Beija ajudou a consolidá-lo como um dos grandes galãs da televisão brasileira. Sua trajetória ainda reuniu novelas e minisséries marcantes, como:
Jogo da Vida
Tenda dos Milagres
Mandala
O Salvador da Pátria
Rainha da Sucata
Explode Coração
Celebridade
Cidadão Brasileiro
Poder Paralelo
Rei Davi
Nos últimos anos de sua carreira, também participou de produções da HBO, da Amazon Prime e da televisão portuguesa.
Um talento também atrás das câmeras
Gracindo Júnior não ficou limitado à atuação. Como diretor e supervisor de dramaturgia, teve participação decisiva em importantes produções da televisão.
Na Globo, supervisionou o núcleo de novelas das 18h e dirigiu trabalhos como Memórias de Amor e Marron-Glacé. Também comandou episódios de Os Trapalhões, Sítio do Picapau Amarelo e Você Decide.
Outro detalhe curioso de sua carreira é que ele participou da direção e da apresentação de alguns dos primeiros videoclipes produzidos para o Fantástico.
Nos palcos, atuou, produziu ou dirigiu mais de 20 espetáculos. Também dirigiu as duas últimas peças estreladas por seu pai: Num Lago Dourado, em 1991, e A História é uma História, em 1993.
No cinema, esteve em filmes como Os Trapalhões na Serra Pelada, Floresta das Esmeraldas, Bufo & Spallanzani, Primo Basílio e Segurança Nacional.
Uma despedida que toca a história da televisão
Gracindo Júnior era casado há mais de cinco décadas com Daisy Poli e deixa filhos e netos. Nos últimos anos, vivia de maneira mais discreta e próxima da família.
Sua morte encerra uma trajetória de mais de seis décadas dedicadas à arte. Uma carreira atravessada pela tradição herdada de Paulo Gracindo, mas construída com personalidade própria, dentro e fora das câmeras.
E hoje, comadre e compadre, não estamos nos despedindo apenas de um ator. Estamos dizendo adeus a uma testemunha e personagem ativa do nascimento da televisão brasileira.
Gracindo Júnior viu a TV Globo nascer, ajudou a construir sua dramaturgia e deixou sua marca em personagens que atravessaram gerações. Aos familiares, amigos e admiradores, ficam os nossos sentimentos. E ao artista, o nosso aplauso e agradecimento por uma vida inteira dedicada à cultura brasileira.
Informações confirmadas pelo gshow e pela biografia oficial do Memória Globo.