Tubarão que pode viver mais de 400 anos divide a Groenlândia — e faz parte da culinária islandesa

Comadre, imagine um tubarão cuja vida pode atravessar séculos! Nas águas geladas do Norte, esse animal extraordinário está no centro de uma disputa entre pesca e conservação. Na Islândia, ele também tem lugar em uma tradição gastronômica conhecida pelo cheiro marcante: o hákarl.
Um gigante de movimentos lentos, que habita águas frias e pode alcançar uma longevidade impressionante, tornou-se motivo de conflito na Groenlândia. O tubarão-da-Groenlândia, de nome científico Somniosus microcephalus, pode se prender aos equipamentos de pesca e causar perdas para quem depende do mar. Sua biologia, porém, exige cuidado: cresce lentamente e demora muitas décadas para atingir a maturidade reprodutiva. Canada.ca
A controvérsia ganhou uma proposta concreta em fevereiro de 2026. O conselho municipal de Avannaata aprovou uma iniciativa que ofereceria 300 coroas dinamarquesas por coração de tubarão entregue, com uma meta de mil animais. O orçamento previsto era de 300 mil coroas, retiradas de uma verba destinada ao controle de pragas. Oceans North
O plano, entretanto, não seguiu adiante. Em abril, foi divulgado que a iniciativa não tinha base legal. A retirada da recompensa não encerrou o desacordo: pescadores continuaram defendendo a redução da população, enquanto a organização Oceans North Kalaallit Nunaat propôs buscar soluções de longo prazo. Oceans North
Por que os pescadores reclamam?
Quando um tubarão fica preso em redes ou linhas com anzóis, retirá-lo pode consumir tempo, danificar materiais e comprometer a captura. Em comunidades remotas, substituir equipamentos também pode ser difícil. A própria Oceans North reconhece essas dificuldades e afirma que os prejuízos precisam ser considerados. Oceans North
A organização questiona, contudo, se matar os animais resolveria o problema. Tubarões de outras áreas podem chegar aos locais de pesca, e o descarte de carcaças pode atrair novos indivíduos. Sua avaliação também aponta outras causas de perda de equipamentos, como correntes fortes, fundos rochosos e materiais abandonados no mar. Oceans North
Ele realmente pode viver mais de 400 anos?
Essa possibilidade vem de uma pesquisa publicada em 2016, que analisou o carbono presente no núcleo do cristalino dos olhos de 28 fêmeas. Para o maior exemplar estudado, a estimativa foi de 392 anos, com uma margem de aproximadamente 120 anos para mais ou para menos. Canada.ca
Portanto, os “mais de 400 anos” representam uma possibilidade dentro da estimativa científica. Não significam que todos os tubarões dessa espécie atinjam essa idade. Uma avaliação canadense de 2025 ressalta que ainda existem incertezas no método e que essas idades não foram validadas por uma técnica independente. Canada.ca
Ainda assim, a combinação de crescimento lento, vida longa e maturidade estimada em torno dos 150 anos torna a espécie especialmente vulnerável à pesca excessiva. O tubarão-da-Groenlândia está classificado como Vulnerável na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza. Canada.ca
O alerta sobre a população
O receio dos conservacionistas é que a retirada de animais provoque perdas difíceis de compensar numa espécie de reprodução tão tardia. Isso não permite afirmar que a população já esteja em colapso: faltam dados sistemáticos sobre a quantidade de tubarões nas águas da Groenlândia e sobre suas capturas acidentais. Canada.ca
Entre as propostas estão melhorar os registros feitos pelos pescadores, identificar os locais de maior ocorrência de capturas e testar equipamentos capazes de reduzir esses encontros. A Oceans North também defende a retirada de materiais abandonados e pesquisas com tecnologias para afastar os tubarões. São alternativas que precisam ser avaliadas junto às comunidades pesqueiras. Oceans North
E na Islândia, esse tubarão é consumido?
Sim, comadre! Apesar do nome, a espécie também ocorre nas águas próximas à Islândia. É dela que se produz o hákarl, alimento tradicional obtido pela fermentação e secagem da carne. O Museu do Tubarão de Bjarnarhöfn apresenta essa tradição e seu processo de preparação. The Shark Trust
A carne fresca contém substâncias que a tornam tóxica. O processamento tradicional modifica sua composição; pesquisas sobre o hákarl acompanham justamente as alterações químicas e microbiológicas que acontecem durante a fermentação. Por isso, não se trata simplesmente de cortar o peixe e servi-lo cru. The Shark Trust
Conhecido pelo odor intenso e pelo sabor que exige costume, o hákarl participa das celebrações de Þorrablót, no inverno islandês, e também pode ser encontrado durante o ano em estabelecimentos comerciais. É uma expressão da cultura alimentar do país, embora a gastronomia islandesa ofereça muitas outras opções. Visit Iceland
A história desse tubarão aproxima ciência, trabalho e tradição. Na Groenlândia, a busca é por formas de reduzir os prejuízos da pesca sem agravar a pressão sobre uma espécie vulnerável. Na Islândia, seu consumo abre outra conversa: como preservar costumes e, ao mesmo tempo, considerar o futuro dos animais que fazem parte deles?